MONTANHAS IBÉRICAS

Neste Blog partilho com os leitores a minha paixão pelas Montanhas Ibéricas, lugares únicos, cada vez mais raros, onde a beleza das paisagens, a preservação dos ecossistemas e a utilização sustentável pelo homem se unem de uma forma harmoniosa e equilibrada.

23 novembro 2005

EXPLOSÃO DE CORES OUTONAIS

Publicada por Paulo Almeida Santos


Riomolín é o nome de uma pequena aldeia com 23 habitantes, encaixada no fundo de um vale paradisíaco, onde correm as águas revoltas do rio Molino, que sulcam no sentido SW-NE a desconhecida serra de Caniellas.
Estamos no coração do recém-criado Parque Natural de las Fuentes de Narcea, Degaña e Ibias no extremo ocidental da Cordilheira Cantábrica, delimitado a oriente pelo Parque Natural de Somiedo, a ocidente pelo Parque Natural dos Ancares e, a sul, pelo Espaço Natural do Alto Sil.
Trata-se do maior espaço natural asturiano, com cerca de 55.000 hectares, galardoado em Julho de 2003 com o título de Reserva da Biosfera da UNESCO e que inclui nos seus domínios a Reserva Natural Parcial do Cueto de Arbas e a Reserva Natural Integral de Muniellos.
É um espaço selvagem, pouco humanizado, formado por vários cordais montanhosos rasgados por abruptos vales fluviais. Impressionam também pela beleza e extensão os seus bosques de faias (Fagus sylvatica) e carvalhos (Quercus petraea, Quercos Pyrenaica, Quercus robur), dos maiores e mais bem conservados da Península, que albergam no seu interior uma riquíssima comunidade de aves e mamíferos. De entre estes, destaco pela sua importância o urso pardo cantábrico (Ursus arctos) e o galo-montês (Tetrao urugallus), este último em grande risco de extinção, constituindo este espaço protegido o refúgio do núcleo mais importante da população cantábrica.
Voltemos novamente à nossa pequena aldeia, situada a 1020 m de altitude, local de partida de uma caminhada fantástica realizada por mim no início de Novembro e que nos levará ao local exacto do nascimento do rio Narcea, o mais importante desta região.

Vale do rio Molino
Ao fundo os cumes nevados da Sierra de la Zarza

Apesar do casario já estar mergulhado numa sombra gélida que durará, segundo uma simpática habitante local, até ao início de Fevereiro, o céu azul, os imponentes maciços calcários que nos rodeiam, a neve recém-caida na noite anterior e o brilho dos bosques outonais, transformam este conjunto num soberbo espectáculo cromático, que nos estimula a prosseguir montanha acima!

Horreo à entrada da aldeia de Riomolín
Construção tipicamente asturiana destinada ao armazenamento de cereais

Deixamos as últimas casas da aldeia em direcção a montante, sempre na margem direita do rio Molino, por um caminho largo, rodeado de prados verdejantes, onde pastam tranquilamante grupos de vacas de raça asturiana, guardadas pelo vigilante cão mastim. Um deles, ainda com poucos meses, decide juntar-se a nós!

Vista do vale do rio Molino em direcção a jusante
Ao fundo, os cumes da Serra de Genestoso

Em pouco tempo, o caminho transforma-se num estreito trilho que, agora mais empinado, se aprofunda num extenso faial que cobre a face norte do Cueto el Fraile (1875 m).

Aspecto do interior do bosque no início da subida (Los Solanos)

As águas tormentosas da Cascata La Ruxidoira, na vertente oposta, tornam-se cada vez mais audíveis à medida que nos aprofundamos no bosque.

Cascata La Ruxidoira oculta no meio do denso faial

Subitamente surge uma clareira no faial, as Fanas de Riomolín, uma zona de prados muito pendentes, protegidos a sul pelo escarpado El Cuerno (1593 m). Olhando mais atentamente para o cume, vislumbramos contra o horizonte a familiar silhueta de uma camurça (Rupicabra rupicabra), pouco comum nestas paragens, que acompanha atentamente os nossos passos.

Uma Camurça (Rupicabra rupicabra) segue atentamente os nossos movimentos desde o alto do El Cuerno

Voltamos novamente a "perder-nos" no imenso bosque, enriquecido agora por imponentes azevinhos, sobre os quais um ruidoso bando de chapins-azuis (Parus caeruleus) lutam pelas bagas mais saborosas. Mais à frente, um grupo de trepadeiras-azuis (Sitta europaea) escalam na vertical os troncos das árvores à procura de larvas.
Ainda estávamos hipnotizados pela observação destes passeriformes, quando atingimos mais um sítio idílico, a Vega El Garachal, um prado lindíssimo que se abre por entre as copas amarelecidas do sugestivo Monte el Oso, lugar ideal para um reconfortante descanso.

Vega El Garanchal

Apenas 30 minutos nos separam do nosso destino, uma portela onde está implantada a Braña Chauchina (1620 m), que separa as bacias hidrográficas do rio Molino e do rio Narcea.

Braña Chauchina

Junto às duas cabanas que formam este refúgio de pastores, avistamos a Laguna Chauchina, cujas águas límpidas, caminhando para ocidente, dão oportunidade ao rio Narcea para sulcar um dos mais belos vales da orografia Ibérica - o vale de Monasterio de Hermo.
Desde aqui avistamos o início da vertente norte do mesmo, por onde cresce um colossal faial, um dos maiores da Península, e que desce os 12 Km do vale, em contínuo, até ser detido pelo vale de Rengos!

Cabeceira do vale de Monasterio de Hermo
Ao fundo, o Pico Prieto (1809 m)

Nas nossas costas, em direcção sul, elevam-se, imponentes, os cumes nevados da serra de Caniellas, formando um anfiteatro onde têm origem as águas do rio Molino.

Laguna Chauchina
Em 2º plano, Reconco (1831 m) e Cueto Roguero (1920 m)

Dado o adiantar da hora, o regresso faz-se pelo mesmo caminho, apesar de a vontade de continuar ser quase incontrolável...
Fica prometido para uma jornada estival uma verdadeira travessia, por exemplo, fazendo a ligação pelo vale do rio Navariego em direcção à aldeia de Trascastro.
Cá estarei para a relatar a seu tempo!

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem Paulo.
Impressionantes as fotos, permenorizada a descrição da caminhada, um céu azul de invejar... Só dá vontade de lá estar!
Narcea é mesmo um mundo por descobrir...
Miguel

Fernando_Vilarinho disse...

Paulo, ler este teu post foi um momento mágico, por esse extraordinário "Parque Natural de las Fuentes de Narcea, Degaña e Ibias" que com 55 mil hect. nem uma vida inteira deve chegar para o conhecer condignamente. E é um pouco maior que os Picos.

abr.