21 Outubro 2007
MONTESINHO INDEFESO...
24 Julho 2007
UM OLHAR SOBRE O MAIS PEQUENO CARNÍVORO DA NOSSA FAUNA
Dados biométricos da doninha (Mustela nivalis)
A pelagem acastanhada do dorso contrasta nitidamente com a mancha ventral clara, característica comum a outros mustelídeos.
Arminho (Mustela erminea)
No que diz respeito à distribuição, a doninha é, juntamente com o toirão (Mustela putorius), o mustelídeo que apresenta uma abrangência mais ampla em termos de ecossistemas, ocupando desde zonas florestadas de montanha até áreas humanizadas, caracterizadas por pastos e campos de cultivo divididos por muros de pedra, o que lhes confere simultaneamente área de caça e refúgio.
O território de cada macho engloba o de várias fêmeas apresentando ambos, no entanto, hábitos eminentemente solitários e territoriais, só quebrados na altura do cio.
O seu período de actividade distribui-se ao longo do dia e da noite, interrompido por alguns momentos de descanso.
Trata-se de um animal dotado de extrema agilidade e, ao mesmo tempo, voracidade, o que lhe permite predar sobre mamíferos com tamanhos consideráveis comparativamente ao seu, como por exemplo coelhos! No entanto, roedores e pequenas aves constituem a sua principal fonte de dieta.
Na actualidade trata-se de uma espécie não ameaçada, que pode ser vista com alguma facilidade ao longo do dia junto a áreas humanizadas. As fotos apresentadas representam um exemplar adulto observado a meio da tarde, durante largos minutos, num amplo prado situado no Vale do rio Minho.
23 Junho 2007
AGUIA-REAL - A RAINHA DAS ALTURAS
Do grupo dos super-predadores que ocupam o topo da cadeia trófica nos ecossistemas peninsulares, a águia-real (Aquila Chrysaetos) assume um papel de destaque pela sua imponência, poderio e elegância.
Outra característica não menos admirável diz respeito à monogamia presente entre os casais, associada a uma ocupação do espaço fortemente territorial, o que explica alguns dos comportamentos mais fantásticos desta ave como são, por exemplo, a agressividade que mostra perante outras aves "invasoras" na defesa dos seus domínios e, não menos espectacular, os voos nupcias realizados em meados de janeiro e que antecipam o acasalamento.
Águia-real defendendo o seu território face a um casal de cegonha-branca (Ciconia ciconia) em pleno Vale do Rio Sabor
O território escolhido pela águia-real é representado por áreas pouco humanizadas, preferencialmente vales fluviais com encostas declivosas e escarpadas, circundados por longas extensões de terreno pouco arborizado, que coincidem com as áreas de caça. Abaixo deste palco, nas fragas mais inacessíveis, encontramos vários ninhos que vão sendo ocupados ciclicamente para a nidificação, ano após ano. Tratam-se dos maiores ninhos entre o mundo das aves podendo atingir um perímetro de cerca de 3 metros e pesar várias dezenas de quilos!
Por esta altura do ano, após a eclosão dos ovos ocorrida no final de Maio, é de esperar a ocupação do ninho por um ou, menos frequentemente, dois aguiotos os quais, nesta fase, passam por um período de total dependência dos progenitores em termos alimentícios.
Jovem aguioto fotografado no ninho em meados de Julho de 2004 num curso de água, afluente do Rio Sabor
É nesta fase que os progenitores iniciam em conjunto largas jornadas de caça nas cumeadas circundantes ao ninho, visando presas de diferentes portes, desde pequenos répteis até mamíferos com peso considerável, tais como raposas ou crias de ungulados silvestres.
Casal de águia-real fotografado no Verão de 2005 no Parque Natural de Somiedo (Astúrias) em claro comportamento predatório
Após a captura das presas nas zonas altas da serra, o progenitor crava as suas potentes garras na peça e transporta-a em voo descendente até ao ninho.
Garanto-vos, por experiência pessoal, que esta é, sem sombra de dúvida, uma das cenas mais emocionantes que se podem contemplar nas nossas montanhas!
No conjunto da valiosa obra de Felix Rodriguez de la Fuente encontramos um registo inesquecível, inserido num dos capítulos de "O Homem e a Terra". Trata-se de uma impressionante captura de uma pequena cabra-montês (Capra pyrenaica) por uma águia-real adulta numa zona escarpada, seguida de uma vertiginosa descida com a presa nas garras no interior de um apertado desfiladeiro, até atingir o ninho!
Apesar da situação da águia-real em Espanha ser no presente pouco preocupante, havendo até indícios de um incremento recente do número de casais reprodutores, em Portugal mantém o estatuto de conservação "Em Perigo". Em relação com o facto apresentado anteriormente, a distribuição de casais concentra-se maioritariamente em zonas transfronteiriças, sendo de realçar a situação de pré-extinção no noroeste português, historicamente ocupado por vários casais. Falo concretamente do desaparecimento recente do casal que nidificava há muitos anos nas fragas da Serra do Marão e na solitária fêmea que representa a última rainha na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG)...
Espero que o futuro retribua esta nobre ave às serranias do extremo norocidental português...
O vôo solitário da última águia-real na área do PNPG ( foto de 2005)
01 Junho 2007
RÃ-IBÉRICA - UM ENDEMISMO PENINSULAR
A rã-ibérica (Rana iberica) é um anfíbio endémico da Península Ibérica, ocorrendo normalmente em zonas montanhosas, nas imediações de ribeiros com vegetação abundante nas margens, cujos biótipos circundantes são frequentemente constituídos por bosques caducifólios ou lameiros. Pode, no entanto, ocorrer numa grande variabiliade de habitats, distribuindo-se desde o nível do mar até acima dos 2000m de altitude.
Habitat típico da rã-ibérica.
Ribeiro de Cagademos (PNPG).
O seu comprimento raramente ultrapassa os 55 mm sendo os maiores tamanhos alcançados pelas fêmeas. Apresenta uma característica mancha retro-ocular escura, que vai diminuindo de largura até à parte posterior e, debaixo desta, uma estreita bando esbranquiçada que se estende desde a parte inferior do olho até à comissura labial.
Apresenta uma actividade tanto diurna como nocturna, encontrando-se activa durante todo o ano, embora seja mais discreta nos dias frios do Inverno.

A área de distribuição limita-se ao quadrante noroeste Peninsular. Em Portugal distribui-se quase exclusivamente a norte do rio Tejo, com excepção de uma população isolada na Serra de S. Mamede.
Trata-se de uma espécie não ameaçada na actualidade, embora haja populações fragmentadas mais sensíveis (S. Mamede, País Basco, Sistema Central), cujas principais ameaças são a perda de habitat e a introdução de espécies de peixes exóticas, especialmente o salmão.
Área de distribuição da rã-ibérica na Península Ibérica.27 Abril 2007
O FIM ANUNCIADO DO PARQUE NATURAL DE MONTESINHO
O anúncio deste mega-projecto deve mobilizar todos os defensores da Conservação da Natureza em Portugal para o seu total repúdio, sob pena de se perder por completo um dos poucos lugares verdadeiramente selvagens do nosso país, cada vez mais acossado por atentados ambientais diversos.
Deixo o meu contributo, enumerando uma série de argumentos contra a execução deste verdadeiro atentado.
- O cumprimento das metas assumidas no Protocolo de Quioto foi o mote para a colocação de centenas de aerogeradores nos cumes das serranias portuguesas nos últimos anos. Arga, Marão, Alvão, Montemuro, Caramulo e Bornes são alguns dos exemplos mais notórios. Como é evidente, qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade ambiental aceita e apoia esta iniciativa em termos conceptuais, mas tudo tem limites… Vejamos o exemplo dos nossos vizinhos espanhóis, que estão a reformular os Planos de Ordenamento das suas Áreas Naturais de forma a garantir zonas de exclusão, livres de eólicos. O Plano de Ordenamento do PNM que se encontra ainda (pasme-se!) em fase final de elaboração, será entregue em breve ao ICN, passando posteriormente por um período de discussão pública, até ser aprovado em conselho de ministros. O timing do anúncio deste empreendimento é, pois, estratégico, bastando uma decisão governamental favorável aos eólicos aquando da aprovação do plano de ordenamento para abrir as portas à sua viabilização, apesar de, segundo notícias recentemente veiculadas (link), a colocação de aerogeradores não ser aceite na proposta técnica preliminar do documento. Veremos o desfecho...
- Ainda nesta linha de pensamento, apesar de compreender que as montanhas são áreas com alto potencial eólico, não encontro uma explicação lógica para a quase total inexistência de eólicos junto à costa atlântica, fustigada durante todo o ano pela fúria dos ventos. Será pelo enorme valor comercial dos terrenos, que enche de dinheiro os bolsos dos especuladores imobiliários? Talvez seja uma boa explicação…
- Os parques eólicos são “vendidos” à população geral como fontes de energia limpa. Contudo, há que desmontar este dogma. Falo em primeiro lugar do impacto visual e paisagístico. Embora este seja um conceito carregado de subjectividade, penso que qualquer amante da montanha e da natureza se sente agredido ao ver no horizonte dezenas de ventoinhas metálicas perfeitamente desproporcionadas relativamente ao que as rodeia. Por outro lado, a construção do parque eólico implica a construção de acessos a todos os aerogeradores que o compõem, com a consequente perda e fragmentação do habitat, transformando-se, por outro lado, em autênticas passadeiras para os menos concienciosos cometerem danos ambientais irreparáveis. Por último, importa referir o comprovado aumento da taxa de mortalidade da avifauna relacionada com a colisão contra as pás dos aerogeradores. Posto isto, o argumento da “energia verde” deve ser sempre confrontado com os efeitos deletérios causados pelos eólicos, de maneira a ponderar uma decisão sensata caso a caso.
- No meio de tantas barbaridades proferidas nos últimos dias, aquela que mais me choca diz respeito à evocação do suposto bom exemplo espanhol ao construir um parque eólico junto à fronteira norte do PNM... Dizia a um jornal Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal de Bragança: “temos do lado de Espanha o bom exemplo; junto à fronteira com o Parque Natural estão instaladas centenas de eólicas”. Caso o Sr. Presidente não saiba, estes aerogeradores estão implantados em área não protegida e, na fase inicial da sua edificação, os responsáveis do PNM enviaram vários documentos ao ICN com o intuito de questionar as autoridades espanholas sobre o projecto. Tudo isto porque as leis comunitárias prevêem limitações à construção de infra-estruturas fronteiriças com potencial dano ambiental (ler notícia do Público). O que aconteceu a seguir é simplesmente inacreditável... Os responsáveis do ICN “arquivaram indevidamente” a documentação enviada , não houve contestação, o tempo passou e o parque eólico foi construído... Terá sido por acaso?
- Outros argumentos lidos nos jornais, tais como “Auto-Europa das eólicas” ou “o maior parque eólico da Europa”, são apenas campanhas de marketing enganadoras, que exploram com alguma perspicácia o espírito megalómano que caracteriza o povo português no que toca a estes epítetos. Compreendo as reivindicações das populações locais quando evocam a ausência de benefícios por viver dentro de uma área protegida o que, juntamente com o envelhecimento populacional, nada tem contribuído para fixar as pessoas à terra. No entanto, olhando mais uma vez para fora das nossas fronteiras, damos conta de bons exemplos de sustentabilidade, onde os valores naturais, paisagísticos, etnográficos e humanos coexistem em plena harmonia, resultando em clara melhoria das condições de vida das populações. Isto não é utópico! Isto existe! Só temos de nos queixar de nós próprios por não sabermos sensibilizar e dar a conhecer as potencialidades das nossas jóias naturais. "(...) numa aldeia espanhola os benefícios têm sido tantos que o alcaide até levou a população numa viagem ao Brasil". Este foi o comentário do presidente da Junta de Freguesia de Parâmio, Manuel João que, para além de tacanho, representa um atentado à inteligência das gentes do Parque e dos que usufruem dele! Sugiro, a título de exemplo, a leitura de um artigo da National Geographic deste mês (pág 54-73), que retrata na perfeição as potencialidades do turismo de natureza em áreas de montanha.
- Por último, tenho que mostrar a minha perplexidade perante a arrogância com que foi apresentado este projecto, quer por parte dos promotores da obra, quer por parte dos autarcas locais. A ideia que passou é a de que nada nem ninguém poderá travar a obra, colocando pressão por antecipação sobre os órgãos decisores, de modo a evitar "fundamentalismos" (palavras do autarca de Bragança). Não menos preocupante é o silêncio dos responsáveis do ICN e mais concretamente de Jorge Dias, director do PNM. Mais de uma semana passada após o anúncio oficial do projecto e nem uma palavra daqueles que seriam, em teoria, os defensores contra esta ameaça ambiental eminente. De facto, esta é uma luta bastante desigual...


