MONTANHAS IBÉRICAS

Neste Blog partilho com os leitores a minha paixão pelas Montanhas Ibéricas, lugares únicos, cada vez mais raros, onde a beleza das paisagens, a preservação dos ecossistemas e a utilização sustentável pelo homem se unem de uma forma harmoniosa e equilibrada.

03 fevereiro 2006

VOANDO SOBRE A GARGANTA DO DOBRA - 1ª PARTE

Publicada por Paulo Almeida Santos


O Rio Dobra, nascido na vertente norte da desconhecida Peña de Dobres (1796 m), sobranceira ao Refúgio de Vegabaño, é o responsável por um dos mais espectaculares acidentes orográficos do Maciço Ocidental do Parque Nacional dos Picos da Europa!
Na sua porção inicial corre tranquilo por entre os extensos faiais da zona de Vegabaño para, mais abaixo, junto a Carombo, sulcar um abrupto desfiladeiro, protegido a ocidente pelo imponente Canto Cabronero (1996 m) e, a oriente, pelos picos aguçados do Maciço Ocidental propriamente dito, entrando desta maneira "feroz" pelo concelho asturiano de Amieva.
Ao longo do seu trajecto, que discorre em sentido Sul-Norte, até à confluência, mais abaixo, com o Rio Sella, o Dobra recebe inúmeros tributários também estes responsáveis por imponentes gargantas, transformando esta paisagem num autêntico labirinto de vales, valinas, escarpas, grutas e cascalheiras, muitas destas inacessíveis ao comum dos mortais...
De entre todos os sectores do vale do Dobra, aquele que mais impressiona pela sua imponência encontra-se na confluência deste com os rios Pelabarda, Pomperi e Junjumia.
Nos próximos 2 posts, convido os leitores das Montanhas Ibéricas a acompanhar-me em 2 caminhadas que nos vão colocar em miradouros privilegiados sobre esta confluência de desfiladeiros, espaço apenas partilhado por imponentes aves rupículas e grupos de camurças mais destemidos!

Mapa da caminhada

A caminhada inicia-se no famoso Mirador del Rey aos 1100 m de altitude. Para atingirmos este ponto temos 2 opções: a 1ª, mais longa, deixando o carro junto ao Lago Enol ( o 1º do conjunto dos Lagos de Covadonga) e percorrendo o estradão em terra batida que cruza a verdejante Vega de Enol; a 2ª, mais cómoda, deixando o carro no final desse mesmo estradão, numa zona chamada Pan de Carmen, a cerca de 10 min a pé do miradouro.

Lago Enol

Cumes do Maciço Ocidental no acesso ao Mirador del Rey

Chegados ao Mirador del Rey, podemos apreciar aos nossos pés o emblemático Bosque de Pome, um riquíssimo faial, labiríntico, abrupto, que se afunda autenticamente nos vales sulcados pelos rios Pomperi e Pelabarda. Impressionante a imagem de enormes árvores que crescem por entre as ranhuras das escarpas calcáreas!
Desde este ponto podemos visualizar a totalidade da caminhada proposta e os importantes desníveis e obstáculos que teremos de vencer.

Bosque de Pome

Aproveitando um pequeno trilho que desce desde o miradouro atingimos a orla do bosque...
A partir daqui deixamos de ter um caminho bem definido não nos impossibilitando, no entanto, de caminhar tranquilamente no meio deste faial maduro, cuja base está livre de vegetação.
Parando um pouco no interior do bosque e fazendo alguns minutos de silêncio, ouvimos com relativa facilidade um dos cânticos mais fabulosos da Natureza da responsabilidade do maior dos pica-paus, o Peto-preto (Dryocopus martius)!

Interior do Bosque de Pome

Para uma mais fácil orientação, o próximo objectivo será uma aproximação gradual à margem direita do rio Pomperi, sempre em descida, até encontrarmos um ponto favorável para o cruzarmos.
Já na outra margem, descemos paralelamente ao curso de água até este se juntar ao rio Pelabarda. Nesta zona de confluência, sombria e húmida por natureza, avistamos uma pequena ponte a jusante que nos permitirá cruzar para a margem direita do Pelabarda.

Ponte Pelabarda

Após termos cruzado o rio, ergue-se à nossa frente uma vertente com acentuado desnível o qual teremos de vencer, aproveitando para o efeito um trilho estreito em zig-zag, que nos põe num prado verdejante na base de uma penha chamada Paré Merin (1065 m)

Prado na base do Paré Merin

À medida que se ganha altura, a vista para o Bosque de Pome serve-nos de alento para os metros que ainda faltam subir...

Bosque de Pome cobrindo o vale do rio Pomperi

A partir daqui o trilho perde-se novamente, obrigando a uma orientação cuidadosa por entre um demolidor relevo kárstico com vários obstáculos. O objectivo será cruzar a vertente sul das Piedras Negras (1080 m) e, simultaneamente, aproximarnos da crista do Porru el Acebo (979 m).

Porru el Acebo

Por aqui é relativamente frequente avistar grupos de camurças (Rupicabra rupicabra)

Camurça (Rupicabra rupicabra)

Chegamos finalmente ao tão ansiado destino!
Por entre os penhascos podemos aceder, com extremo cuidado, ao bordo superior do desfiladeiro, onde encontramos aos nossos pés a confluência do Pelabarda, do Dobra e do Junjumia! Á nossa frente podemos contemplar em toda a sua extensão o vale do Junjumia, protegido pelas paredes "enrugadas" do cume de La Mota (941 m), em cuja cabeceira se encontra o refúgio de Vegarredonda e o famoso trilho que se dirige ao Mirador de Ordiales. Como pano de fundo, um mundo de gelo e rocha, de aspecto himalaico, onde se erguem a mais de 2000 m os altos cumes do Maciço Ocidental.


Vale do rio Junjumia

Cumes do Maciço Ocidental

Vale do Dobra. Ao fundo observa-se o cume do Canto Cabronero (1996 m)

Depois deste cenário arrebatador, o regresso impõe-se, visto ser necessário cruzar de novo o Bosque de Pome, de preferência com luz, agora em sentido ascendente.
Para o dia seguinte estava programada uma nova abordagem do canhão do Dobra, agora desde a aldeia de Amieva, cuja descrição farei no próximo post. Até lá!

4 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado por partilhar experiência tão rica. Octávio Lima (ondas3.blogs.sapo.pt)

Crix disse...

Absolutamente espectacular
Parabéns

João disse...

Uma beleza incontornável, Parabéns.

Profundezas... disse...

Lindo, Obrigada :)