MONTANHAS IBÉRICAS

Neste Blog partilho com os leitores a minha paixão pelas Montanhas Ibéricas, lugares únicos, cada vez mais raros, onde a beleza das paisagens, a preservação dos ecossistemas e a utilização sustentável pelo homem se unem de uma forma harmoniosa e equilibrada.

24 julho 2007

UM OLHAR SOBRE O MAIS PEQUENO CARNÍVORO DA NOSSA FAUNA

Publicada por Paulo Almeida Santos

Pertencente à família Mustelidae que inclui, entre outros, a lontra (Lutra lutra), a marta (Martes martes) e o texugo (Meles meles), a doninha (Mustela nivalis) representa o elemento mais pequeno deste grupo de mamíferos, sendo considerada o carnívoro de porte mais pequeno da nossa fauna.

Dados biométricos da doninha (Mustela nivalis)

Apesar dos machos atingirem dimensões discretamente maiores que as fêmeas, podendo medir cerca de 27cm e pesar até 170 gr, o dimorfismo sexual não existe relativamente às outras características físicas. A pelagem curta é castanha arruivada no dorso, cabeça, patas e cauda, sendo o ventre completamente branco.


A pelagem acastanhada do dorso contrasta nitidamente com a mancha ventral clara, característica comum a outros mustelídeos.


Relativamente à sua identificação, a diferenciação entre a doninha e o arminho (Mustela erminea), outro mustelídeo da nossa fauna, pode levar a alguma confusão no período do ano em que este adquire a pelagem de Verão, já que no Inverno se apresenta maioritariamente branco. O raríssimo arminho diferencia-se essencialmente por um porte ligeiramente maior e, principalmente, por apresentar uma cauda mais comprida e negra na extremidade.

Arminho (Mustela erminea)

No que diz respeito à distribuição, a doninha é, juntamente com o toirão (Mustela putorius), o mustelídeo que apresenta uma abrangência mais ampla em termos de ecossistemas, ocupando desde zonas florestadas de montanha até áreas humanizadas, caracterizadas por pastos e campos de cultivo divididos por muros de pedra, o que lhes confere simultaneamente área de caça e refúgio.

A abundância de muros de pedra é uma característica importante no habitat da doninha.


O território de cada macho engloba o de várias fêmeas apresentando ambos, no entanto, hábitos eminentemente solitários e territoriais, só quebrados na altura do cio.
O seu período de actividade distribui-se ao longo do dia e da noite, interrompido por alguns momentos de descanso.
Trata-se de um animal dotado de extrema agilidade e, ao mesmo tempo, voracidade, o que lhe permite predar sobre mamíferos com tamanhos consideráveis comparativamente ao seu, como por exemplo coelhos! No entanto, roedores e pequenas aves constituem a sua principal fonte de dieta.

Na actualidade trata-se de uma espécie não ameaçada, que pode ser vista com alguma facilidade ao longo do dia junto a áreas humanizadas. As fotos apresentadas representam um exemplar adulto observado a meio da tarde, durante largos minutos, num amplo prado situado no Vale do rio Minho.


23 junho 2007

AGUIA-REAL - A RAINHA DAS ALTURAS

Publicada por Paulo Almeida Santos

Juvenil de águia-real (Aquila Chrysaetos) em voo planado no vale do Rio Sabor

Do grupo dos super-predadores que ocupam o topo da cadeia trófica nos ecossistemas peninsulares, a águia-real (Aquila Chrysaetos) assume um papel de destaque pela sua imponência, poderio e elegância.
Outra característica não menos admirável diz respeito à monogamia presente entre os casais, associada a uma ocupação do espaço fortemente territorial, o que explica alguns dos comportamentos mais fantásticos desta ave como são, por exemplo, a agressividade que mostra perante outras aves "invasoras" na defesa dos seus domínios e, não menos espectacular, os voos nupcias realizados em meados de janeiro e que antecipam o acasalamento.

Águia-real defendendo o seu território face a um casal de cegonha-branca (Ciconia ciconia) em pleno Vale do Rio Sabor


O território escolhido pela águia-real é representado por áreas pouco humanizadas, preferencialmente vales fluviais com encostas declivosas e escarpadas, circundados por longas extensões de terreno pouco arborizado, que coincidem com as áreas de caça. Abaixo deste palco, nas fragas mais inacessíveis, encontramos vários ninhos que vão sendo ocupados ciclicamente para a nidificação, ano após ano. Tratam-se dos maiores ninhos entre o mundo das aves podendo atingir um perímetro de cerca de 3 metros e pesar várias dezenas de quilos!
Por esta altura do ano, após a eclosão dos ovos ocorrida no final de Maio, é de esperar a ocupação do ninho por um ou, menos frequentemente, dois aguiotos os quais, nesta fase, passam por um período de total dependência dos progenitores em termos alimentícios.

Jovem aguioto fotografado no ninho em meados de Julho de 2004 num curso de água, afluente do Rio Sabor

É nesta fase que os progenitores iniciam em conjunto largas jornadas de caça nas cumeadas circundantes ao ninho, visando presas de diferentes portes, desde pequenos répteis até mamíferos com peso considerável, tais como raposas ou crias de ungulados silvestres.

Casal de águia-real fotografado no Verão de 2005 no Parque Natural de Somiedo (Astúrias) em claro comportamento predatório


Após a captura das presas nas zonas altas da serra, o progenitor crava as suas potentes garras na peça e transporta-a em voo descendente até ao ninho.
Garanto-vos, por experiência pessoal, que esta é, sem sombra de dúvida, uma das cenas mais emocionantes que se podem contemplar nas nossas montanhas!
No conjunto da valiosa obra de Felix Rodriguez de la Fuente encontramos um registo inesquecível, inserido num dos capítulos de "O Homem e a Terra". Trata-se de uma impressionante captura de uma pequena cabra-montês (Capra pyrenaica) por uma águia-real adulta numa zona escarpada, seguida de uma vertiginosa descida com a presa nas garras no interior de um apertado desfiladeiro, até atingir o ninho!



Apesar da situação da águia-real em Espanha ser no presente pouco preocupante, havendo até indícios de um incremento recente do número de casais reprodutores, em Portugal mantém o estatuto de conservação "Em Perigo". Em relação com o facto apresentado anteriormente, a distribuição de casais concentra-se maioritariamente em zonas transfronteiriças, sendo de realçar a situação de pré-extinção no noroeste português, historicamente ocupado por vários casais. Falo concretamente do desaparecimento recente do casal que nidificava há muitos anos nas fragas da Serra do Marão e na solitária fêmea que representa a última rainha na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG)...
Espero que o futuro retribua esta nobre ave às serranias do extremo norocidental português...


O vôo solitário da última águia-real na área do PNPG ( foto de 2005)

01 junho 2007

RÃ-IBÉRICA - UM ENDEMISMO PENINSULAR

Publicada por Paulo Almeida Santos

Exemplar de rã-ibérica (Rana iberica) fotografado na Primavera de 2007 num afluente do Rio Homem na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês

A rã-ibérica (Rana iberica) é um anfíbio endémico da Península Ibérica, ocorrendo normalmente em zonas montanhosas, nas imediações de ribeiros com vegetação abundante nas margens, cujos biótipos circundantes são frequentemente constituídos por bosques caducifólios ou lameiros. Pode, no entanto, ocorrer numa grande variabiliade de habitats, distribuindo-se desde o nível do mar até acima dos 2000m de altitude.

Habitat típico da rã-ibérica.
Ribeiro de Cagademos (PNPG).

O seu comprimento raramente ultrapassa os 55 mm sendo os maiores tamanhos alcançados pelas fêmeas. Apresenta uma característica mancha retro-ocular escura, que vai diminuindo de largura até à parte posterior e, debaixo desta, uma estreita bando esbranquiçada que se estende desde a parte inferior do olho até à comissura labial.
Apresenta uma actividade tanto diurna como nocturna, encontrando-se activa durante todo o ano, embora seja mais discreta nos dias frios do Inverno.


A área de distribuição limita-se ao quadrante noroeste Peninsular. Em Portugal distribui-se quase exclusivamente a norte do rio Tejo, com excepção de uma população isolada na Serra de S. Mamede.
Trata-se de uma espécie não ameaçada na actualidade, embora haja populações fragmentadas mais sensíveis (S. Mamede, País Basco, Sistema Central), cujas principais ameaças são a perda de habitat e a introdução de espécies de peixes exóticas, especialmente o salmão.

Área de distribuição da rã-ibérica na Península Ibérica.





27 abril 2007

O FIM ANUNCIADO DO PARQUE NATURAL DE MONTESINHO

Publicada por Paulo Almeida Santos


Notícias vindas a público recentemente anunciam a construção de um gigantesco parque eólico inserido nos domínios do Parque Natural de Montesinho (PNM), umas das áreas com mais alto valor biológico da Península, onde vivem em estado selvagem valiosas espécies emblemáticas da fauna e flora Ibérica.
O anúncio deste mega-projecto deve mobilizar todos os defensores da Conservação da Natureza em Portugal para o seu total repúdio, sob pena de se perder por completo um dos poucos lugares verdadeiramente selvagens do nosso país, cada vez mais acossado por atentados ambientais diversos.
Deixo o meu contributo, enumerando uma série de argumentos contra a execução deste verdadeiro atentado.
  • O cumprimento das metas assumidas no Protocolo de Quioto foi o mote para a colocação de centenas de aerogeradores nos cumes das serranias portuguesas nos últimos anos. Arga, Marão, Alvão, Montemuro, Caramulo e Bornes são alguns dos exemplos mais notórios. Como é evidente, qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade ambiental aceita e apoia esta iniciativa em termos conceptuais, mas tudo tem limites… Vejamos o exemplo dos nossos vizinhos espanhóis, que estão a reformular os Planos de Ordenamento das suas Áreas Naturais de forma a garantir zonas de exclusão, livres de eólicos. O Plano de Ordenamento do PNM que se encontra ainda (pasme-se!) em fase final de elaboração, será entregue em breve ao ICN, passando posteriormente por um período de discussão pública, até ser aprovado em conselho de ministros. O timing do anúncio deste empreendimento é, pois, estratégico, bastando uma decisão governamental favorável aos eólicos aquando da aprovação do plano de ordenamento para abrir as portas à sua viabilização, apesar de, segundo notícias recentemente veiculadas (link), a colocação de aerogeradores não ser aceite na proposta técnica preliminar do documento. Veremos o desfecho...
  • Ainda nesta linha de pensamento, apesar de compreender que as montanhas são áreas com alto potencial eólico, não encontro uma explicação lógica para a quase total inexistência de eólicos junto à costa atlântica, fustigada durante todo o ano pela fúria dos ventos. Será pelo enorme valor comercial dos terrenos, que enche de dinheiro os bolsos dos especuladores imobiliários? Talvez seja uma boa explicação…
  • Os parques eólicos são “vendidos” à população geral como fontes de energia limpa. Contudo, há que desmontar este dogma. Falo em primeiro lugar do impacto visual e paisagístico. Embora este seja um conceito carregado de subjectividade, penso que qualquer amante da montanha e da natureza se sente agredido ao ver no horizonte dezenas de ventoinhas metálicas perfeitamente desproporcionadas relativamente ao que as rodeia. Por outro lado, a construção do parque eólico implica a construção de acessos a todos os aerogeradores que o compõem, com a consequente perda e fragmentação do habitat, transformando-se, por outro lado, em autênticas passadeiras para os menos concienciosos cometerem danos ambientais irreparáveis. Por último, importa referir o comprovado aumento da taxa de mortalidade da avifauna relacionada com a colisão contra as pás dos aerogeradores. Posto isto, o argumento da “energia verde” deve ser sempre confrontado com os efeitos deletérios causados pelos eólicos, de maneira a ponderar uma decisão sensata caso a caso.
  • No meio de tantas barbaridades proferidas nos últimos dias, aquela que mais me choca diz respeito à evocação do suposto bom exemplo espanhol ao construir um parque eólico junto à fronteira norte do PNM... Dizia a um jornal Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal de Bragança: “temos do lado de Espanha o bom exemplo; junto à fronteira com o Parque Natural estão instaladas centenas de eólicas”. Caso o Sr. Presidente não saiba, estes aerogeradores estão implantados em área não protegida e, na fase inicial da sua edificação, os responsáveis do PNM enviaram vários documentos ao ICN com o intuito de questionar as autoridades espanholas sobre o projecto. Tudo isto porque as leis comunitárias prevêem limitações à construção de infra-estruturas fronteiriças com potencial dano ambiental (ler notícia do Público). O que aconteceu a seguir é simplesmente inacreditável... Os responsáveis do ICN “arquivaram indevidamente” a documentação enviada , não houve contestação, o tempo passou e o parque eólico foi construído... Terá sido por acaso?
  • Outros argumentos lidos nos jornais, tais como “Auto-Europa das eólicas” ou “o maior parque eólico da Europa”, são apenas campanhas de marketing enganadoras, que exploram com alguma perspicácia o espírito megalómano que caracteriza o povo português no que toca a estes epítetos. Compreendo as reivindicações das populações locais quando evocam a ausência de benefícios por viver dentro de uma área protegida o que, juntamente com o envelhecimento populacional, nada tem contribuído para fixar as pessoas à terra. No entanto, olhando mais uma vez para fora das nossas fronteiras, damos conta de bons exemplos de sustentabilidade, onde os valores naturais, paisagísticos, etnográficos e humanos coexistem em plena harmonia, resultando em clara melhoria das condições de vida das populações. Isto não é utópico! Isto existe! Só temos de nos queixar de nós próprios por não sabermos sensibilizar e dar a conhecer as potencialidades das nossas jóias naturais. "(...) numa aldeia espanhola os benefícios têm sido tantos que o alcaide até levou a população numa viagem ao Brasil". Este foi o comentário do presidente da Junta de Freguesia de Parâmio, Manuel João que, para além de tacanho, representa um atentado à inteligência das gentes do Parque e dos que usufruem dele! Sugiro, a título de exemplo, a leitura de um artigo da National Geographic deste mês (pág 54-73), que retrata na perfeição as potencialidades do turismo de natureza em áreas de montanha.
  • Por último, tenho que mostrar a minha perplexidade perante a arrogância com que foi apresentado este projecto, quer por parte dos promotores da obra, quer por parte dos autarcas locais. A ideia que passou é a de que nada nem ninguém poderá travar a obra, colocando pressão por antecipação sobre os órgãos decisores, de modo a evitar "fundamentalismos" (palavras do autarca de Bragança). Não menos preocupante é o silêncio dos responsáveis do ICN e mais concretamente de Jorge Dias, director do PNM. Mais de uma semana passada após o anúncio oficial do projecto e nem uma palavra daqueles que seriam, em teoria, os defensores contra esta ameaça ambiental eminente. De facto, esta é uma luta bastante desigual...
Ao contrário do que dizem, de forma egoísta, os autarcas transmontanos, as serranias do nordeste português constituem um património universal e não exclusivamente dos habitantes locais, pelo que me sinto no pleno direito de lutar pela sua conservação. Posto isto, apelo a todos aqueles que, tal como eu, valorizam um dos últimos redutos selvagens de Portugal, a protestar contra este projecto que, caso avance, levará seguramente à aniquilação do Parque Natural de Montesinho.


18 março 2007

HOMENAGEM A PEDRO PIDAL

Publicada por Paulo Almeida Santos

Os valores e o simbolismo associado às montanhas não se esgota no conjunto de recursos naturais e paisagísticos que estas encerram. A elas estão inseparavelmente ligados homens e mulheres que, pelo seu esforço e dedicação, permitiram manter estes espaços como os últimos redutos selvagens num mundo ainda pouco sensível a esta problemática.
O asturiano Pedro Pidal foi um desses visionários, cujo esforço e dedicação levaram, em 1918, à criação do Parque Nacional da Montanha de Covadonga, o primeiro espaço natural peninsular e dos primeiros da Europa com esta categoria. Setenta e sete anos depois iria ser incluído no actual Parque Nacional dos Picos da Europa, um dos lugares mais singulares da geografia Ibérica.
Para além de político, Pedro Pidal era um montanheiro bem treinado. A 5 de Agosto de 1904, acompanhado pelo pastor Gregorio Perez "El Cainejo", logrou atingir pela 1ª vez o vértice do mítico Naranjo de Bulnes, transformando-os nos pioneiros da escalada em Espanha.
O seu último desejo foi cumprido em 1949, ano da sua morte. O seu corpo foi sepultado sob os rochedos de Ordiales, em plena Montanha de Covadonga, ligando-o para sempre a este local magnífico pelo qual lutou durante a sua vida.
Prestemos-lhe, então, a devida homenagem...

O início da caminhada tem lugar junto às margens do Lago Enol que, juntamente com o Lago Ercina, formam os conhecidos Lagos de Covadonga, autênticos cartões de visita do Parque Nacional dos Picos da Europa.

LAGO ENOL

Contornando a margem direita do referido lago, surge um estradão de terra batida que vai percorrer a ampla Vega de Enol, onde um tapete de erva verdejante serve de pasto a dezenas de cabeças de gado, “salpicado” aqui e ali por conjuntos de cabanas que servem de refúgio aos pastores e animais, quando as agruras do clima obrigam ao recolhimento.

VEGA DE ENOL

À nossa esquerda podemos contemplar a Capela do Bom Pastor, onde, a 25 de Julho, se celebra a Festa do Pastor.

CAPELA DO BOM PASTOR

Após cerca de 2,5 Km quase em plano, atingimos um desvio à esquerda que devemos seguir, alcançando uma zona denominada Pan de Cármen, coincidindo com o término do estradão. A utilização do carro até este ponto está autorizada, o que constitui uma opção bastante atractiva, dado que encurta a distância total da caminhada em cerca de 5 Km.
Antes de iniciarmos a caminhada propriamente dita, a visita ao Mirador del Rey (1075 m) torna-se obrigatória. Para isso basta seguir em frente no desvio referido anteriormente e caminhar cerca de 500 m até atingirmos o afamado mirador. A paisagem que se abre aos nossos pés deixa-nos sem respiração… Um amplo faial maduro denominado Bosque de Pome, rasgado pelas águas revoltas dos rios Pomperi e Pelabarda, “despenha-se” até aos 650 m de altitude, onde atinge a convergência com o canhão do Dobra!

BOSQUE DE POME

Partimos de Pan de Carmen por um estradão largo que desce suavemente pelo meio do bosque, até alcançarmos a ponte sobre o rio Pomperi. Encontramo-nos no denominado Pozo del Aleman onde, rezam as crónicas, o importante investigador alemão dos Picos, Roberto Frasinelli, costumava deliciar-se nas águas límpidas do rio Pomperi.

POZO DEL ALEMAN

A partir daqui o caminho ascende pela margem contrária, surgindo à nossa esquerda uma fonte de águas límpidas, atingindo em poucos minutos a Vega La Piedra, onde está implantado um conjunto de cabanas para apoio ao gado e aos pastores. Este local encontra-se assinalado por um imponente bloco rochoso calcáreo, o qual teremos de contornar.


VEGA LA PIEDRA

Aqui podemos apreciar alguns símbolos místicos da arquitectura popular do norte de Espanha, nomeadamente os chamados “espanta brujas”, pequenos blocos de pedra com forma pontiaguda colocados na parte superior das chaminés e destinados a afastar visitas indesejadas…

ESPANTA BRUJAS

Atingimos mais uma vez um novo desvio, devendo seguir pela esquerda por um trilho bastante irregular. À nossa frente abre-se um vale de relevo suave -a Vega de Canraso-, sulcado pelas águas tranquilas de um pequeno regato, cuja cabeceira será o nosso próximo destino.

VEGA DE CANRASO

Junto ao nascimento do regato encontramos mais um agrupamento de construções primitivas denominado La Rondiella.

LA RONDIELLA

Após um ligeiro esforço suplementar terminamos a primeira grande subida. Estamos no Collado Gamonal, a partir do qual podemos, em dias limpos, contemplar a enorme muralha de cumes, picos e agulhas que formam o tecto do Maciço Ocidental dos Picos da Europa! Entre outros destacam-se as imponentes Torres de Cebolleda (2445 m), Torre de Santa Maria (2486 m) e a Torre de Enmedio (2467 m).
O impacto deste lugar inóspito é cortado subitamente pelo cheiro a lenha queimada emanado pela chaminé do Refúgio de Vegarredonda, um pouco mais abaixo, que nos convida para uma refeição quente!



REFÚGIO DE VEGARREDONDA

Depois de nos despedirmos dos simpáticos guardas do refúgio e dos amistosos cães-pastor que o guardam, seguimos o nosso caminho.
Deparamo-nos com um novo cruzamento, devendo seguir o trilho que se dirige para ocidente. A outra opção, passando junto ao antigo refúgio, agora desactivado, levar-nos-ia ao coração do maciço, a lugares belíssimos como o Jou Santu, Jou Lluengu, autênticas plataformas para realizar difíceis escaladas aos vários cumes circundantes.



REFÚGIO DESACTIVADO E CUMES DO M. OCIDENTAL

A dura subida que se segue, zigzagueando por entre um caos de blocos calcáreos -Cueñe Cerrada-, obriga a cuidados reforçados.
No fim da mesma, olhando para trás, o refúgio de Vegarredonda aparece-nos como um pequenino ponto milimético no meio das rochas, assinalado pelos latidos dos canídeos que seguiram atentamente a nossa dura ascenção.

VEGARREDONDA

O sector que se segue , bastante mais plano, cruza na diagonal os chamados Campos de Torga. À nossa direita podemos contemplar o escarpado vale do rio Junjumia, que se lança encosta abaixo antes de atingir o curso do Dobra.


CAMPOS DE TORGA

Encontramo-no já muito próximos do nosso destino quando alcançamos um amplo prado, onde se encontram as ruínas do refúgio ICONA, propriedade do extinto Instituto para a Conservação da Natureza.

REFÚGIO ICONA

Para o caminheiro mais atento, os grupos de camurças (Rupicapra rupicapra) que vagueiam por estas paragens tornam-se facilmente visíveis, transmitindo a sensação de estramos num ambiente verdadeiramente selvagem.

CAMURÇAS

Uma curta subida separa-nos do tão ansiado destino! Ainda estamos ofuscados com a imponência dos picos que recortam o horizonte, quando, subitamente, o chão se abre sob os nossos pés… Lá bem no fundo, 1000 m abaixo, o Vale de Amieva mostra-se em todo o seu esplendor, fracturado pelas águas selvagens do Dobra e dos seus tributários... Absolutamente indescritível...

VISTAS DO MIRADOR DE ORDIALES - M. OCIDENTAL

VISTAS DO MIRADOR DE ORDIALES - VALE DE AMIEVA

Depois de tantas emoções só nos resta, em silêncio, agradecer ao guardião deste lugar maravilhoso os seus valiosos préstimos, que permitiram à nossa geração desfrutar deste reduto ainda selvagem!
Termino com a transcrição de uma frase de Pedro Pidal, gravada na pedra do seu túmulo e que resume na perfeição o verdadeiro Espírito da Montanha:

" Nosotros, enamorados del Parque Nacional de la Montaña de Covadonga, en él desearíamos vivir, morir y reposar eternamente; pero, esto último, en Ordiales, en el reino encantado de los rebecos y las águilas, allí donde conocimos la felicidad de los Cielos y de la Tierra, allí donde pasamos horas de admiración, emoción, ensueño y transporte inolvidables, allí donde adoramos a Dios en sus obras como Supremo Artífice, allí donde la Naturaleza se nos apareció verdaderamente como un templo"

TÚMULO DE PEDRO PIDAL